O colapso da formação padronizada
Bismak Rodrigues
10/10/20252 min read
O mercado de trabalho não é mais movido por títulos, mas por competências.
O estudo mostra que, até 2030, cerca de 39% das habilidades exigidas hoje serão transformadas ou substituídas, e que a lacuna de competências é o maior obstáculo à transformação dos negócios. Diante disso, cabe uma reflexão urgente: o modelo atual de formação educacional ainda prepara pessoas para postos de trabalho ou para resolver problemas reais?
Em pleno avanço da Inteligência Artificial, Big Data e automação, insistimos em formar profissionais dentro de cursos padronizados, que tratam o conhecimento como um produto em série. A estrutura curricular, linear e rígida, ainda predomina em escolas e programas corporativos, e a avaliação é vista como um evento isolado, não como um processo contínuo de mensuração de competências. O resultado é previsível: titulados tecnicamente “aptos”, mas funcionalmente inseguros.
O relatório do WEF destaca que as habilidades em ascensão combinam dimensões técnicas e humanas — pensamento analítico, criatividade, flexibilidade cognitiva, influência social, literacia digital. No entanto, em boa parte das instituições, essas competências não são rastreadas, nem mensuradas. Quantas escolas sabem, de fato, quais competências estão em desenvolvimento dentro do seu corpo discente? Quais dominam a capacidade de extrair dados de desempenho para entender o nível de proficiência de seus estudantes? Em grande parte dos casos, sequer há indicadores capazes de traduzir o que realmente se aprende.
A educação formal ainda mede o esforço, não o efeito!
E quando o processo formativo se desconecta do que o mercado valoriza, resolução de problemas, adaptabilidade e aprendizagem contínua, a escola se torna obsoleta diante da velocidade com que o conhecimento se renova.
É tempo de amadurecer os processos de ensino e repensar o papel das organizações educacionais. A escola que apenas propaga conteúdo competirá diretamente com a internet, e perderá. Plataformas abertas, motores de busca e inteligências generativas já cumprem com excelência o papel de disseminar informação. O desafio da escola contemporânea é outro: tornar-se um guia capaz de transformar dados, experiências e interações em desenvolvimento real de competências.
Essa virada exige que o processo formativo seja baseado em dados. É preciso coletar, interpretar e aplicar informações sobre o desempenho de cada aprendiz: tempo de resposta, persistência, evolução em temas específicos, padrões de erro, engajamento. Cada estudante deve ser visto como um sistema em movimento, com trajetórias únicas de aprendizagem.
Modelos como Learning Analytics, Taxonomia de Bloom e Microlearning adaptativo oferecem caminhos possíveis, não apenas para mensurar, mas para personalizar a formação. Com eles, programas de aprendizagem podem ajustar-se ao contexto de cada indivíduo, conduzindo-o, de forma intencional, ao desenvolvimento das competências exigidas pelo seu campo de atuação.
Mais do que reformar currículos, o que se impõe é uma reformulação sistêmica: gestores educacionais precisam entender que o desempenho institucional depende da capacidade de monitorar, prever e adaptar os processos de aprendizagem. A escola do futuro, aquela que o relatório do WEF projeta como necessária, é orientada por evidências, e não por tradições. É a escola que forma estrategistas, não repetidores; que interpreta dados para guiar trajetórias, e não apenas para emitir notas.
Em um mundo onde a informação se multiplica exponencialmente, o valor da educação está em ajudar o indivíduo a transformar o saber em competência, e a competência em impacto social e econômico. O papel da escola, portanto, é claro: deixar de ser um depósito de conteúdos e assumir-se como sistema inteligente de desenvolvimento humano, capaz de acompanhar e potencializar o que o mercado e a sociedade demandam, profissionais realmente preparados para aprender, adaptar e inovar.

